Anjoporuminstante
Caraguatatuba, algum dia do mês de janeiro do ano de 2001, praia de Martin de Sá, mais ou menos 11h da noiteEstávamos meu brother James (Jaime, in memórian) e eu passeando pela praia depois de um dia de trabalho no “bar Abissal” que petencia à Renata que contratou o James para fazer a instalação elétrica do bar que por sua vez me indicou para levar o equipamento e fazer o som no bar durante a temporada daquele verão.
Cheguei em Caraguatatuba no dia 27 de dezembro junto com o Minero e o Cezinha, que nos levou em seu fusca branco.
A aventura começou quando saímos de São Paulo.
Como o fusca do Cézar não estava com os documentos em dia, tivemos que viajar por um caminho alternativo prá fugir da fiscalização, e o caminho escolhido foi uma tal de “estrada da petrobrás”, uma estradinha de terra incravada na serra que serve os veículos pesados da petrobrás.
Imagine uma esterada de terra e pedriscos, precária, sem sinalização, sem indicação alguma e cheia de buracos, uma estrada no meio do nada que parece levar à lugar nenhum que começa na cidade de Salesópolis. Pois é, foi por lá que descemos a serra
Pegamos essa estrada por volta das 5h da tarde sem ter nenhuma noção de quanto tempo leveríamos prá chegar no litoral.
Começamos a descer a serra e em razão da precariedade do caminho o fusca não passava de 40km por hora.
O tempo foi passando, a noite foi caindo, aquele lugar escuro sem placas, no meio do mato. Só não tinha como errar o caminho porque não havia ruas que cruzassem a estrada nem desvios que pudessem nos confundir. Era só aquele caminho sinistro que parecia que estava nos levando a lugar nenhum.
Se não bastasse a noite escura sem luar, começou à chover, mas à chover forte.
Aí sim, começamos a nos preocupar, não estavamos preparados prá imprevistos, estávamos sem água (tudo bem estava chovendo), sem comida, desprevenidos para qualquer emergência, tinhamos que contar com a sorte.
Continuamos nossa aventura, agora com mais emoção porque estava de noite, a chuva aumentou e para piorar o ponteiro do combustível entrou na reserva e não tinhamos a mínima noção da distância que estávamos do litoral.
A preocupação evoluiu para desespero.
Noite escura com aquele temporal num caminho que parecia não ter fim e a gasolina acabando, “mi Dios del Cielo, o que acer”, difícil foi não entrar em desespero, até que chegou num ponto do caminho que apareceu uma estaca fincada da beira da estrada com o número 50.
Olhamos a placa e ficamos na dúvida, o que seria aquela estaca com o número 50.
Paramos, olhamos, tentamos entender, no momento não entendemos mas contínuamos nossa odisséia, até que muitos minutos depois encontramos outra estaca fincada na beira da estrada com o número 49.
Aí sim entendemos o que eram aquelas estacas; era a indicação de quantos kms faltavam para chegar em algum lugar no litoral que não fazíamos idéia de onde seria.
Beleza agora sabíamos que estava perto, mas o que poderia ser um alívio se tornou uma preocupação porque de uma estaca à outra demorava muito; era um olho na estaca e outro no ponteiro da gasolina; a cada estaca o ponteiro baixava um pouco.
E o desespero evoluiu para agonia: estaca 48........47.........46........45.......44........43.......42.
Até que chegamos em um ponto em que avistamos algumas luzes ao longe.
Nunca havia dado tanta importância à uma luz acesa. Quando vimos aquelas luzes comemoramos como se tivéssemos chegado ao cume do Monte Everest depois de uma subida tumultuada, mas não, haviamos chegado no litoral de Caraguatatuba no limite do combustível.
Aí sim achamos o bar Abissal, eram 11:30h da noite do dia 27 de dezembro de 2001.
Terminava assim nossa odisséia de descida da serra. Cont.......... .
Anjoporuminstante (part2)
Bom voltando ao nosso tema, o James e eu resolvemos tomar uma cerveja num quiosque na beira da praia.Eram 11 e pouco da noite, chegamos no quiosque, pegamos uma cerveja, fomos para a mesa que estava na areia da praia no quiosque.
Antes de sentarmos e degustarmos aquela cerveja geladinha, resolvemos puxar a mesa prá mais perto do mar, ficando assim destacados do quiosque. Não havia mais pessoas próximas de nós.
Coloquei a cerveja no meu copo, depois no copo do James, fizemos tim tim prá brindar e antes de beber olhei pro mar e alguma força fêz com que eu virasse um pouco meu rosto para o lado direito, e nesse instante começou a acontecer o milagre.
Olhando pro mar avistei uma pessoa entre as ondas, a princípio parecia ser um banhista se divertindo, mas continuei olhando e notei algo estranho, aquela pessoa estava sendo levada pelas ondas e se afogaria.
Olhei pro James e disse: “olha lá Jaime tem um cara se afogando”.
Me levantei rápido e saí correndo em direção ao mar a fim de ajudar aquela pessoa, o James veio em seguida.
Cheguei perto daquele homem, estendi a mão para puxá-lo e enquanto ele alcançava minha mão, numa fração de segundo, olhei no fundo de seus olhos e vi o alívio de quem estava à beira da morte e encontrou a salvação.
Aquele homem viu em mim um anjo enviado por Deus naquele momento para salvá-lo, e a satisfação de estar sendo o salvador da sua vida e a gratidão que enxerguei em seu olhar no instante em que eu o puxava pela mão já foi meu pagamento, minha recompensa por tê-lo salvado. Mesmo que depois me dessem alguma coisa de valor material não teria mais valor do que o orgulho que senti naquele momento por estar sendo útil salvando a vida daquele homem.
Na verdade naquela hora não passou pela minha cabeça que poderia ganhar alguma coisa daquela pessoa que não fosse vê-la bem, e outra, não estava escrito na testa dele se era pobre, rico ou, que me daria alguma coisa por isso.
Eu não queria mais nada, estava satisfeito por ter sido usado por Deus prá salvá-lo; essas coisas não têm preço.
Enquanto o James e eu o tirava da água, percebi que o homem estava alterado e com hálito de quem havia bebido um pouco, então ele falou: “não consegui sair porque tenho trombose no joelho e eles travaram”, nesse instante vieram umas pessoas correndo em nossa direção prá ver o tinha acontecido, e na frente estava uma mulher que era a sobrinha dele: “o que aconteceu” perguntou muito assustada, “salvamos ele antes que se afogasse” disse.
“Ah tio Nelsom porque não nos avisou que vinha pro mar” falou sua sobrinha, depois nos disse o que poderia fazer por nós por tê-lo salvo, então disse naturalmente que não precisava se preocupar com isso e o que interessava era que seu tio estava bem e que voltariamos à mesa prá tomar nossa cerveja. Ela insistiu dizendo: “então deixa eu pagar sua conta, melhor, venham sentar à nossa mesa compartilhar alguns momentos conosco”, queria nos agradar.
Diante de sua insistência aceitamos e fomos com eles, estavam no quiosque ao lado.
Tomamos nossos lugares, veio o garçon, encheu a mesa com porções e bebidas e ficamos ali conversando, quando soubemos que o seu Nelsom era na verdade o Dr Nelsom, um dos diretores, na época, do Banco Bamerindos.
Percebi que no momento em que ele disse que era doutor, ficou esperando que eu “crescesse os olhos” e pedisse alguma recompensa por tê-lo salvo, na verdade era o que queria que fizesse prá que não ficasse me devendo aquele “favor” que tinha feito à ele.
Foi então que aquele homem arrogante, que até então não havia pronunciado nenhuma palavra de agradecimento dirigida ao Jaime e eu, experimentou algo inédito em sua vida.....
(continua)
Anjoporuminstante ( part 3)
Bom, depois de ter salvo a vida daquele pobre homem, que apesar de ser podre de rico, milinário, era pobre de espírito, era carente de valores humanos e sentimentais, valores que realmente fazem a diferença na pessoa.Aquele homem nunca havia experimentado aquela sensação, e senti que aquilo o estava incomodando.
Ele não falou mas estava implícito nos seus olhos, e o que ele realmente queria dizer era:”PQP, não é possível, tive que ser salvo por esse cara aí, baixinho, magrelo, feínho, e que não tira esse sorriso do rosto, e pior, mesmo sabendo que sou milionário não me pediu nada, ele tem que me pedir alguma coisa prá eu ficar “kites” com ele, não é possível, eu tenho que pagar pelo que ele me fêz, eu sou melhor que ele”.
Mesmo não tendo pronunciado essas palavra, foi essa a leitura que fiz do seu olhar.
Pessoas como ele acham que o dinheiro pode comprar tudo, inclusive pessoas e sentimentos.
Ele não se conformava em ter que dever algum favor prá mim, ainda mais um favor daqueles.
Na sua visão, ele me devia sua vida e tinha que me pagar de alguma forma.
Mas mal sabe ele que já havia me pagado.
No momento em que estendi a mão prá tirá-lo da água, o que vi no fundo de seus olhos foi um agradecimento inconsciente por estar sendo seu anjo salvador, e isso já foi o suficiente prá deixar eu satisfeito e felíz.
Naquela fração de segundo ele não pensou em seu dinheiro, nem em suas propriedades nem em seus amigos milionários, nem em seu uísque com caviar do dia-a-dia; ele só pensou em mim e na felicidade de estar tendo mais uma chance prá viver, que na realidade não era eu quem estava dando aquela chance de vida prá ele e sim Deus, que é o Senhor da Vida e da Morte e que me usou prá fazer aquele milagre, só servi como um instrumento Divino, e sinto orgulho por isso sim.
Mas seu inconformismo com aquilo tudo chegou a um limite que fêz aparecer sua verdadeira face.
Ele achava que estava por baixo diante daquela situação. Achava que eu estava tripudiando dele na conversa que estava tendo com sua sobrinha; na verdade era uma conversa sobre outras coisa , já tinha deixado de lado o assunto do salvamento, eu queria era tomar minha cerveja, comer camarão e me divertir.
Mas ele não se conformou e numa atitude de arrogância total me olhou, ergueu o naríz e disse:”olha aqui “ô muléke” já te disse que sou milionário, tenho num sei quantas propriedades aqui e no exterior, eu limpo a bunda com dinheiro e vou deixar uma bela herança pro meu filho que tem uma moto de um milhao de dólares, e você aí tirando onda com a minha sobrinha, quem você pensa que é?, ela não é pro seu bico nãããão”.
Ele achou que com isso estaria me humilhando como se eu tivesse feito um favor em tê-lo salvado.
Naquele momento todos na mesa ficaram em silêncio, me olhando e esperando alguma reação, alguns acharam que ia baixar a cabeça, outros torciam prá eu levantar e dar uma porrada no meio da sua cara prá calar a boca daquele velho bêbado que só devia dar trabalho e que já estava enchendo o saco de todos, que na maioria eram parêntes e que tinham que ficar quietos porque eram bancados por ele.
Olhei prá ele, ergui o naríz e disse com essas mesmas palavras:”olha aqui o “seu nelsu”, com todo respeito, o senhor pode ser milionário, ter posses, ser não sei o que de sei lá qual banco e pode limpar essa bundona aí com o que você quiser, mas, se não fosse esse cara aqui com pouco dinheiro, baixinho, feínho, magrelo, mas honesto e com muita dignidade e orgulho de ser quem sou ter salvo sua vida, tudo isso que você diz que tem aí não ia valer porra nenhuma prá você”.
Nesse momento congelou a cena, todos travaram, olhei nos olhos de um por um, e vi que me agradeciam. O que disse era o que todos ali tinham vontade de dizer prá ele, mas não podiam dizer porque tinham o rabo preso.
Ninguém demonstrou, mas por dentro de cada um estava uma festa, e o que queriam me dizer era: “caraca meu, valeu cara, até que enfim, esse velho fdp achou alguém que falou umas verdades, ele estava mesmo merecendo e precisando disso, viva o jonny bigu, viiiiiivaaaaaaa”.
Não foi minha intenção, mas já que todos gostaram, vou confessar, eu adorei também dar uma lição naquele cara arrogante.
Então olhei prá ele novamente e ví a fúria em seus olhos, ele não tinha encontrado ainda em toda sua existência alguém que o confrontasse, acostumado a estar acima de tudo e de todos, a mandar e ter todos a seus pés e ter sempre o contrôle das situações, experimentou a sensação de ser contrariado; ficou sem ação por um momento, até que que me olhou e depois de ter tomado umas 7 espanholas gritou: “ora seu muléke” e virou as mesas lotadas de bebida e comida prá cima de mim, mas como estava esperto e já esperava uma reação hostil, me safei e caiu tudo no chão.
Passivo, apenas olhei e lamentei, mais uma vêz ele mostrou ser irracional, repulsivo e sem nenhum valor à ser admirado, só vivia cercado pelas pessoas em razão de suas posses.
Na hora sua sobrinha, com muita educação e morrendo de vergonha me olhou, pediu desculpas e disse prá eu perdoá-lo.
Falei que quem perdoa é Deus e que estava desculpado, afinal até ali a vida não o tinha ensinado certos valores e que tinha aceitado sentar à mesa prá agrada-la por querer retribuir o que havia feito pelo seu tio que por causa de sua arrogância não teve coragem de agradecer.
O James me olhou e disse: “porra bigu você é fd héin meu, valeu, deu uma lição no velho”, pegou na minha mão e me deu um abraço verdadeiro de amigo, aí eu disse pro Jaime: “é meu irmão, tem um pouco de você nisso também, afinal foi com você que aprendi a dizer mais o que penso assim na lata”.
Aceitamos as desculpas, olhamos o velho Nelsom sentado, bêbado, esquecido e desmanchado na areia; no fundo senti foi dó dele, mas foi bom prá ele.
Saímos abraçados e rindo daquilo tudo, porque tava lá um cara que gostava de viver, o JAMES, e tenho certeza, que só por termos salvado aquela vida, foi garantido nosso lugar no céu.
Saímos caminhando pela praia deixando prá tráz aquelas pessoas estarrecidas e com uma bela história prá contar.
Mas acho que tudo isso serviu de lição prá cada um que presenciou tudo aquilo, cada um em seu íntimo aprendeu um pouco, inclusive eu.
Mas na verdade a maior liçaõ quem teve foi o Sr Nelsom em ver que o dinheiro não pode comprar tudo nessa vida, o dinheiro não é tudo na vida, porque esses tipos de pessoas acham que podem comprar tudo.
Que Deus dê longa vida à ele, apesar da idade avançada, têm muita coisa da vida que ele não sabe e que precisa aprender.
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